Campos: Uma Cidade de Superlativos

Postado por John Elliott,
vice-cônsul, Consulado Geral no Rio de Janeiro

Óleo, Educação e o Som da Música em Campos dos Goytacazes


Depois de dirigir para o norte do estado do Rio de Janeiro por cinco horas, entrei em Campos e passei, sem perceber, do lugar que um dos meus contatos marcou como ponto de encontro: a entrada da cidade. Achei que iria ver algo como arcos, mas logo descobri que a entrada é marcada por uma torre de perfuração de petróleo montada no meio de uma rotatória. A torre sendo o ícone dos poços de petróleo que enriquece a cidade de meio milhão de pessoas.

Meu novo amigo era Paulo Cezar Fontoura, da instituição de ensino de música Orquestrando A Vida (OAV). Eu o conheci, e três outros de seus sócios, quando fui a uma apresentação que fizeram para a Seção de Imprensa, Educação e Cultura do Consulado Geral no Rio de Janeiro no mês anterior.

O nome completo da cidade é Campos dos Goytacazes, em homenagem à tribo indígena que enfrentou os colonizadores portugueses em uma feroz, mas vã resistência à incursão. E a parte de “campos” é fácil de entender, já que a área é relativamente plana, cerca de oitenta quilômetros entre as montanhas e o oceano.

Campos está crescendo! A descoberta de depósitos de petróleo nos arredores da cidade em meados da década de 1970 deu início a um ritmo lento mas constante de atividade econômica, que se acelerou recentemente com o aumento da atenção mundial para as reservas submarinas do “pré-sal”.

Mais tarde naquele dia, Paulo e eu fomos ao concerto dos músicos de elite da Orquestrando A Vida. A ONG tem como base um projeto de melhoria social venezuelano criado em meados da década de 1980 que utiliza música clássica como base para o espírito comunitário e a camaradagem. Um dos princípios do El Sistema é que os estudantes mais velhos e experientes passam a ser professores e modelos para os mais novos. Nas escolas do El Sistema, virtualmente todos os alunos vêm de comunidades carentes.

Chegamos ao moderno Teatro Trianon e percebi que era um convidado de honra quando fui levado para uma sala VIP com um cartaz na porta: “Bem-vindo vice-cônsul … e Prefeito”.  Aqui encontrei, novamente, com o presidente da ONG, Jony William, com o produtor, Charles William Vianna, e um dos maestros, Marcos Rangel. Em seguida, fomos para um auditório de 800 lugares que logo esgotou sua capacidade. A performance da noite apresentava os músicos mais profissionais da OAV, a maioria com menos de dezessete anos, que fazem parte da Orquestra Sinfônica Mariuccia lacovino. Sob a batuta experiente de Luis Mariceio Carniero, eles se apresentaram com sete músicos e cantores convidados da Orquestra Transfônica de Minas Gerais.

As duas horas seguintes foram uma viagem musical emocionante e sensacional enquanto a sala ressoava com a rica música. Fiquei impressionado com a qualidade do desempenho dos estudantes de música; soavam como qualquer outra orquestra profissional internacional. As músicas eram arranjos de trilhas sonoras de filmes conhecidos e de séries de TV, cheias de emoção e energia. Em algumas das onze músicas, os jovens eram acompanhados por um dos mais renomados músicos brasileiros, o pianista e violinista Marcus Vianna. Enquanto a apresentação acabava, eu desejava que alguém tivesse filmado para eu pudesse reviver cada peça mais tarde.

A plateia se dispersava relutantemente depois da apresentação e eu subi ao palco para falar com alguns dos músicos da OAV. Queria agradecê-los não só por seu desempenho, mas também por sua dedicação ao estudo da música. Sei um pouco a respeito da disciplina necessária para se destacar musicalmente, já que minha filha acabou de se formar em música e muito dos últimos 15 anos de nossas vidas girou em torno de seus estudos musicais. No fim da noite, voltei para o meu quarto de hotel com os acordes da noite ainda soando em minha cabeça.

Já que só tinha o dia seguinte para reuniões, eu reduzi o foco desta viagem inicial da “Rota 66” a três áreas: educação/ cultura/ petróleo e gás. Fui levado por Thomas Kromann, um consultor de óleo e gás que trabalha para o governo de Campos, à minha primeira parada do dia em uma importante universidade tecnológica, . Primeiro eu me encontrei com o dr. Marcelo Neves Barreto, um engenheiro de petróleo da Secretaria de Desenvolvimento de Petróleo.

Nessa reunião tive uma boa visão da indústria de petróleo e gás da região e fiquei sabendo que a região de Campos foi a primeira no Brasil a produzir etanol a partir da cana de açúcar. Realmente, Campos parece ter alguns superlativos, incluindo ser a primeira cidade em toda a América do Sul a ster rede elétrica na década de 1830, além da Bacia de Campos ser a maior área petrolífera do Brasil, responsável por 85% da produção nacional.

Estava curioso para saber quais os desafios da indústria no Brasil. Dr. Barreto disse que um deles é a necessidade de grande quantidade de mão-de-obra especializada em tecnologia. É aqui que a IFF entra, com seu currículo de ciência e tecnologia.  Como se tivessem aproveitado a deixa, os representantes da IFF entraram: Luiz Caldas Pereira, reitor; Jefferson Manhães de Azevedo, diretor geral; Claudia Barroso Vasconcellos, diretora de ensino técnico; Pedro Castelo Branco, reitor da pós-graduação; Leonardo C. Januta, diretor de ensino avançado e Carlos Fernandes Henriques, reitor de indústria técnica.

Fiquei sabendo que a região de Campos-Macaé serve como centro educacional sincronizado com a indústria de petróleo e gás, especialmente desde que os depósitos de petróleo do pré-sal foram descobertos. Explorações recentes detectaram a existência de uma reserva de petróleo gigante no subsolo, alguns quilômetros abaixo do fundo do mar. Durante o passeio pelo campus principal da IFF, consegui ver algumas das salas onde as futuras gerações de tecnólogos estão se formando. Encontrei professores e estudantes envolvidos em vários cursos, desde eletrônica a programação de computadores e hidráulica – muito impressionante!

À tarde, visitei outra instituição importante, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), focada principalmente em pesquisa acadêmica e tecnologia vocacional. Durante a reunião com o reitor, Silvério de Paiva Freitas; com o reitor assistente, Carlos Logullo e o professor de materiais avançados Carlos Fontes Vieira, eles mencionaram que 60% dos funcionários da PETROBRAS são ex-alunos da UENF. A escola também tem um ótimo programa de inglês – a língua é pré-requisito para se conseguir trabalhar na indústria petrolífera. Em nosso tour pelo campus, conheci vários chefes de departamento dedicados, como a Dra. Ana Diegues Skury, que me mostrou o laboratório onde diamantes industriais de alta qualidade são fabricados. Quando o professor Vieira focou o microscópio, fiquei surpreso ao ver estas minúsculas jóias tão de perto e depois como revestem os gumes de serras especializadas.

Logo em seguida, visitei uma pequena comunidade chamada Baleeira, uma favela historicamente carente que está vendo melhora significativa nos últimos anos.  Para mim, é muito importante ver diferentes setores econômicos e falar com as pessoas de Campos. Em um tour pela comunidade, fiquei sabendo dos êxitos dos novos projetos, da existência de um posto de saúde e alguns programas de trabalho.

Depois da visita, Paulo me levou de volta ao centro da cidade onde eu tinha agendado outra reunião jno Instituto Brasil/Estados Unidos (IBEU), com o diretor Douglas Jay Moraes. Embora seja brasileiro, Douglas tem um inglês impecável, adquirido em seus anos de formação nos EUA. Também conheci seu pai, Feliciano de Moraes, fundador do centro binacional que é hoje um dos líderes em preencher a crescente demanda por mão-de-obra especializada técnico-administrativa no setor de petróleo e gás.

No jantar, o Douglas me contou várias histórias do tempo em que morou nos EUA e eu aprendi mais sobre Campos e a região. Depois fomos a outra apresentação da OAV mas, desta vez, com músicos estudantes que compõem a Orquestra Sinfônica Mariuccia Iacovino. Eles acompanharam três músicos brasileiros famosos, Wagner Tiso no cello, sua filha, India Tiso, cantando e Marcio Malard no baixo. Foi outra apresentação gratuita e meus anfitriões na OAV me contaram que a cidade patrocina tais apresentações regularmente. Um grande bônus cultural para os cidadãos!

No dia seguinte deveria voltar ao Rio de Janeiro, mas queria saber mais sobre Campos, sobre a escola OAV e seus programas, e passar a manhã com os três músicos famosos da noite anterior enquanto era levado para conhecer as cinco diferentes orquestras e o coral. Cada orquestra fez uma pequena apresentação para a gente e também conhecemos as várias salas de ensaio. São tantos os alunos, que muitos praticam nos corredores, também não há muitos instrumentos musicais, então só os mais experientes podem levá-los para casa. A música acaba sendo uma excelente alavanca para uma bem-sucedida estrutura de disciplina e educação e tudo o que vejo na OAV ressalta os benefícios desta proposta.

Depois da animada apresentação do grupo dos mais velhos, quis falar algumas palavras aos estudantes e funcionários. Falando em português, contei a minha própria experiência com a música, mencionei o sucesso da minha filha como compositora e maestrina.  Esforcei-me para conter as emoções, já que a música faz parte da minha vida desde pequeno. O meu comentário final foi de coração: “Não importa qual é a sua classe as roupas que veste, mas dedicação, trabalho duro e alma é tudo o que precisamos para ter sucesso na vida”.

Mais tarde o diretor do grupo, Jony William, me disse: “Constantemente enfrentamos problemas financeiros, mas nossa visão é que temos cinco mil alunos neste programa. Nossa missão é simplesmente que estes jovens sejam felizes. A música é um instrumento, uma ferramenta maravilhosa para este fim. Não importa que estes alunos se tornem músicos maravilhosos, mas que sejam felizes.

A volta para casa, passando pelas planícies com maravilhosa paisagem, ofereceu-me uma grande oportunidade para refletir sobre tudo que vi durante minha breve estada em Campos. A cordialidade dos cidadãos e as oportunidades de trabalho, as experiências educacionais e culturais são um terreno fértil para este senso de otimismo e orgulho que senti por onde passei.  Não tenho dúvidas que Campo dos Goytacazes será uma fonte de superlativos por muitos anos ainda.

Postado em Campos, Rio de Janeiro, Brazil.

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2 thoughts on “Campos: Uma Cidade de Superlativos

  1. Excelente artigo, parabéns ao autor em nos trazer um depoimento tão rico em detalhes mostrando o que está acontecendo em Campos, principalmente desse projeto magnifico que é o Orquestrando a Vida, que está levando uma vida melhor para crianças carentes através da música.

  2. Este é um artigo muito especial. Ao mesmo tempo que nos relata o autor, John Elliott, com os projetos desenvolvidos em nossa cidade, nos enche de satisfação também por fazer parte desta realidade.
    Obrigado John.

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